sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

Da janela, os vizinhos....A chegada dos primeiros (1)

A chegada dos primeiros (1)

Setembro de 2008. O novo exuberante, ainda não concluído, recebe os primeiros moradores. Faxina geral no andar a minha vista. Um colorido cansativo toma conta da minha visão. Mas é deles afinal. Gosto não se discute. Passos para lá e para cá dos novos condôminos indicam que já vieram pra morar. Crianças nesse andar. Bolas de encher, vermelhas e brancas, na escada que leva ao andar de cima. Tudo combinando com a parede vermelha do mezanino e com alguns móveis com almofadas vermelhas e cortinas vermelhas!!!!
Penso aqui da minha janela que devem estar comemorando a chegada no prédio ou é aniversário da menina que, no seu espaço, tem cortinas vermelhas. É vermelho demais para o meu juízo, mas eu não tenho nada a ver com isso. Nem com a rede que tem no quarto do casal, vermelha! Esses também já devem estar imaginando coisas a meu respeito. Lembro de quando era criança, que todos os meus objetos pessoais , além dos brinquedos, eram vermelhos. A escova de dentes, a escova de cabelos, a roupa da boneca nova, o “velocípede”. O vermelho era a minha cor, mas ali na minha frente, é demais da conta.
Mais acima, outros movimentos de limpeza e pintura, aguardam a chegada de mais alguns. Esses bem que poderiam estar à altura da minha janela. Tudo muito branco, como eu gosto hoje, com lustres fantásticos, sinalizando que vem bom gosto por aí. Deles terei pouco acesso. Tenho que olhar o lado positivo disso – vão imaginar menos a meu respeito também. Isso é um alívio, de certa forma. Tornar explícita a minha solidão para os novos vizinhos incomoda demais a minha condição de vivente e de vizinha sozinha, ainda que curiosa. Também eles sabem que sou uma solitária porque vêem que ninguém mais freqüenta a minha janela, além de eu mesma, a não ser em raras ocasiões, quando recebo visitas, ou nos dias de faxina, quando tenho a certeza de companhia.
Tenho a minha York, mas eles não sabem que tenho a companhia dela. Amiga de todas as horas, não consegue alcançar a minha janela. O mundo dela é ainda mais limitado que o meu. A visão dela nunca alcançou o por do Sol de antigamente. O novo exuberante não fez nenhuma diferença pra ela.
Dezembro de 2008. Enfeites foram colocados no andar de cores cansativas. As cores do Natal somam-se ao vermelho e às cores diárias daquele apartamento. A escada, que antes tinha bolas de encher, recebeu guirlandas iluminadas. Mas com os enfeites de Natal também chegaram cortinas brancas colocadas em todas as janelas do apartamento!! São de um tecido muito fino, mas já não tenho mais o mesmo acesso aos vizinhos vermelhos. O meu olhar curioso já está em busca de novos moradores...

domingo, 16 de novembro de 2008

Da janela, os vizinhos...e os galinheiros

...e os galinheiros.
Antes da construção, nas casas que foram destruídas para dar lugar ao novo, havia nos quintais, muitas galinhas e, lógico, um galo também, para não fugir da regra. Incomodavam demais quando pegadas pelo galo. Um barulho infernal ao amanhecer do dia. São muitas ainda as casas que restaram e continuam a criar galinhas e galos. Com o desmanche de duas dessas casas para a construção do novo ainda acreditei que viesse o alívio, mas me enganei.
O novo se erguia e alguém da construção também arranjou um galo pra perturbar os que ali ficavam para dormir sendo acordados por ele, além da sirene. E eu concluía que nunca iria me livrar daquele barulho, voltando a imaginar formas sobre como eu poderia acabar com aquilo. Imaginava-me muitas vezes de espingarda na mão mirando para acertar um galo. Infelizmente não conseguia vê-los ou felizmente para os donos dos galos e protetores dos animais.
O galo contratado como despertador continuava a cantoria infernal somando-se ao coro das galinhas do outro vizinho cujo galo também não tem um pingo de noção da hora. Canta desorientadamente até hoje. Muitas vezes ouço outros galos cocoricando na vizinhança. Um canta, outro responde e mais um chama a atenção de outro. Uma orquestra de galos. Curioso esse costume...
Uma mania feia de meus vizinhos mais próximos. Criar galinhas em plena cidade! É bem verdade que eles já estavam ali quando construíram o prédio onde moro. Na certa, esses que ainda mantêm o galinheiro e resistiram à demolição de suas casas com a chegada do novo, ainda vão continuar ali por mais tempo, mas há um lado positivo nessa história. A resistência das casas e a presença dos galinheiros mantêm minha janela a uma distância do novo exuberante e evita um pouco a invasão de privacidade, apesar de praticada por ambos os lados. Mas o cocoricó, é enlouquecedor!
Que agonia! A minha e a das galinhas. Essa agonia se intensifica quando os donos dos galinheiros resolvem tocar fogo nas folhas secas que caem das poucas mangueiras que restaram, acumuladas num buraco grande feito ao lado do galinheiro. Haja fumaça, galinhas e galos cocoricando. Um inferno!
Há momentos que fico a imaginar que estão maltratando as galinhas. Elas soam como desesperadas, como se estivessem à beira da morte. Talvez essa seja mesmo a hora delas irem para a panela dos vizinhos. Acredito que seja essa a razão do galinheiro. Engordá-las para comê-las torradas, à cabidela ou à moda de Totoia. Quem sabe, uma canja para os idosos das casas. Menos mal. E somente por esse motivo perdôo os galinheiros.

domingo, 2 de novembro de 2008

Da janela, os vizinhos...O por do Sol interditado

O por do Sol interditado....
A vista panorâmica mudou. Da área de serviço do prédio onde moro há quinze anos, a paisagem já não é mais a mesma. Desde 2006, quando teve início a construção do primeiro duplex de Natal, também teve início a interdição ao poente. Antes de surgir o novo prédio , passava o tempo vendo o por do Sol, único e lindo a cada entardecer, a cada estação.
Ali, em pé, diante da presença Divina em forma de natureza, fazia as minhas orações, agradecendo ao universo o presente de viver aquele dia e o próximo, que seria ainda mais bonito. Quantas vezes, dali, agradecí a dádiva daquela paisagem tão bela, que apesar de interditada hoje, ainda vejo através da memória, nos pensamentos e na devoção. “Espírito Infinito, Inteligência Máxima. Poder Divino Criador...” uma oração extensiva a todas as coisas da natureza e do homem. À vida.
Mas interditaram o por do Sol na minha janela. A paisagem alterada com a presença do novo exuberante perdeu muitos momentos de entardecer. O Sol não mais se põe em determinadas épocas. Não aqui na minha janela. Em todo o ano, põe-se somente à esquerda ou à direita do novo exuberante. Nesse horário, quando a paisagem torna-se mais quente com as cores do poente e também não são prolongados, os momentos de rara beleza diminuíram ainda mais. Meses nessas imagens e mais ainda sem elas.
A minha frente, pela minha janela, não terei mais o por do Sol por vários meses do ano. Em determinadas épocas, sei que ele está ali, mas não o vejo como gostaria. Sinto ameaças ainda pelo lado esquerdo do que sobrou da vista. Há espaços que podem abrigar outras novas construções e extinguir definitivamente a minha paisagem de por do Sol. Por sorte, o concreto erguido é agradável aos olhos. Uma construção moderna surgiu sob a inspiração do homem caprichoso. E a isso também admiro, apesar da intervenção.
Felizmente tenho o nascer do Sol do lado oposto. Ali serei presenteada por toda a vida, acredito. Pelo menos, enquanto aqui eu morar. Tenho o privilégio de viver em frente ao verde que cobre as dunas da via costeira. Um espaço que preserva a mata atlântica do litoral é garantido pelas forças armadas e proporciona-me uma paisagem que nunca será transformada. Através dela curo todos os meus males e anseios. Não posso me queixar. Tenho o nascer do Sol garantido e a aurora de cada dia. A esperança da vida.

sábado, 25 de outubro de 2008

Da janela, os vizinhos...A Construção (2)

A Construção ...
Betoneira estacionada anunciava o início das fundações. Cimento girando na panela gigante preparava a massa para descarga nas lajes e vigas que iriam erguer o novo esqueleto. A presença constante do capacete branco dava segurança ao mestre, aos operários e aos vizinhos do lado. Numa visão bem clara de quem comandava a obra, percebíamos a hierarquia observando os capacetes nas suas cores distintas.
Com olhos curiosos e condição de vizinha, chamava-me a atenção o capacete branco bem sentado na cabeça do comando. Era uma mulher que andava à frente, deixando bem marcada a presença feminina naquele local de machos. Da minha janela orgulhava-me do sexo frágil mostrando a força, o conhecimento e a autoridade diante de todos. Eu me sentia a própria e ainda mais impressionada! Sem perder a elegância, ela andava de um lado para outro em cima do salto! Muito jovem e charmosa!
Tijolos iam sendo sentados numa rapidez e habilidade que faziam crescer as paredes da noite para o dia. Antes miúdos, na fundação da obra, os operários iam crescendo à medida das lajes e se aproximando da altura da minha janela. A partir daí também começavam a interagir. Sabíamos disso pois ouvíamos as abordagens indiscriminadas a quem se aventurasse a aparecer nas janelas. Ouvíamos os gritos – Dona Maria!!! Aliás, nós mulheres éramos todas chamadas de D. Maria. Algumas vezes uma cantoria cafona. Outras vezes uma piada – calcinha preta, hein?!!!
Nós, vizinhas, tínhamos perdido a privacidade e a liberdade de andar pela casa como antes, quando ainda não havia a construção. Eu particularmente tinha acesso à área de serviço do meu apartamento sem a menor preocupação. Com os novos vizinhos operários tivemos que ter mais cuidado com o que vestíamos para não provocarmos as cantadas que certamente viriam, vestidas ou não. Mas se viessem não era de todo ruim. Dizem por aí que se uma mulher não recebe cantada nem de operário é porque a coisa não está nada boa ou ela é feia demais. Esse era o consolo.
Às vezes me preocupava se eles não iam perder o equilíbrio durante as abordagens. Mas estavam sempre muito seguros. Todos bem presos com cintos adequados, garantindo à obra o não acontecimento de acidentes de trabalho, anunciado diariamente na plaqueta – estamos há tantos dias sem acidentes.
Com a nova construção, outra mudança se concretizava na paisagem da minha janela. O por do sol começava a ser interditado. Ficava a imaginar se eu não mais faria as minhas orações ao entardecer do sol ou se ainda seria possível visualizar o poente naquela paisagem.
Mas interditaram o por do sol...

domingo, 5 de outubro de 2008

Da janela, os vizinhos...A Construção (1)

A Construção...

Começo de uma nova construção. Estava na mídia da especulação imobiliária. O primeiro duplex de Natal, no bairro do Tirol, o mais charmoso da cidade. O bairro nobre.
Demolição de casas iniciou as atividades para a instalação do canteiro de obras que seria o ninho para o novo. Abrigaria uma empresa de construção civil na sua mais recente inovação. “O Duplex”.
O leva-entulho era estacionado à espera do passado para dar lugar ao novo. Ia carregar na caçamba as lembranças de tão pouco tempo atrás, sem muito significado para os que viam de longe. Boas lembranças para os viventes daquelas paredes. E a minha curiosidade de vizinha, que via, sem permissão, o passado dos outros, assistindo ao presente daquele momento, sem a certeza exata do que se passou ali, antes matéria. Ia também a minha imaginação sobre a rotina dos outros.
Árvores derrubadas arrastando os ninhos dos pássaros e os sons dos seus donos. Ouvia o desespero de longe. Perdidos e indignados, os pássaros e as árvores. Uma geração das espécies sacrificadas em nome do desenvolvimento urbano e em prejuízo dos meus olhos e ouvidos.
Em pouco tempo foi criado um espaço novo. Um vazio que só tinha sentido para os que o fizeram e para os que o desejavam. O canto dos pássaros e o farfalhar das árvores deram lugar aos sons da engenharia.
Sirene tocando. Homens trabalhando. Materiais chegando. Bate-estaca zoando. Observava da janela a metodologia adotada. A rotina da construção. Um canteiro de obras organizado. Operários de uniforme e capacetes. Apesar da transformação e da agressão, já era bonito de se ver e comentava com um grande amigo que me visitava – veja como é bacana esse canteiro! A empresa estava de parabéns!
Todos uniformizados num ritmo frenético como é de costume nas construções, quebravam e passavam com seus carros de mão, cheios dos restos “mortais” da construção de outros e de outrem. Daqui imaginava que esses já tinham um destino. Pelo menos nas construções de novos, o passado dos velhos é visto com certo valor. Nesse caso, uma parte deles foi sepultada onde havia antes uma piscina.
Andaimes eram empilhados lado a lado, numa perfeição tão organizada que dava gosto de se ver. Parecia realmente a construção de um ninho gigante. Ferros de todos os tamanhos foram colocados ali embaixo, numa promessa de sustentar um novo esqueleto. O esqueleto do novo exuberante.

Da janela, os vizinhos...enquanto não uso os pincéis...

O ano de 2008 não tem me dado trégua me faltando a inspiração para os pincéis. Assim resolví dar início a uma nova atividade. Escrever... Começo hoje a postar alguns escritos que surgiram nos momentos de abstração.

Pela janela, de onde ainda consigo ver o sol se por, observo os vizinhos e imagino a rotina deles sem a menor cerimônia...

A partir de agora, meus caros leitores, divido com vocês minhas observações e imaginações, além da curiosidade que é de todos - Da janela, os vizinhos....

sábado, 27 de setembro de 2008

Entalhe nas Cores


Visitação até 15 de outubro/08