A Construção ...
Betoneira estacionada anunciava o início das fundações. Cimento girando na panela gigante preparava a massa para descarga nas lajes e vigas que iriam erguer o novo esqueleto. A presença constante do capacete branco dava segurança ao mestre, aos operários e aos vizinhos do lado. Numa visão bem clara de quem comandava a obra, percebíamos a hierarquia observando os capacetes nas suas cores distintas.
Com olhos curiosos e condição de vizinha, chamava-me a atenção o capacete branco bem sentado na cabeça do comando. Era uma mulher que andava à frente, deixando bem marcada a presença feminina naquele local de machos. Da minha janela orgulhava-me do sexo frágil mostrando a força, o conhecimento e a autoridade diante de todos. Eu me sentia a própria e ainda mais impressionada! Sem perder a elegância, ela andava de um lado para outro em cima do salto! Muito jovem e charmosa!
Tijolos iam sendo sentados numa rapidez e habilidade que faziam crescer as paredes da noite para o dia. Antes miúdos, na fundação da obra, os operários iam crescendo à medida das lajes e se aproximando da altura da minha janela. A partir daí também começavam a interagir. Sabíamos disso pois ouvíamos as abordagens indiscriminadas a quem se aventurasse a aparecer nas janelas. Ouvíamos os gritos – Dona Maria!!! Aliás, nós mulheres éramos todas chamadas de D. Maria. Algumas vezes uma cantoria cafona. Outras vezes uma piada – calcinha preta, hein?!!!
Nós, vizinhas, tínhamos perdido a privacidade e a liberdade de andar pela casa como antes, quando ainda não havia a construção. Eu particularmente tinha acesso à área de serviço do meu apartamento sem a menor preocupação. Com os novos vizinhos operários tivemos que ter mais cuidado com o que vestíamos para não provocarmos as cantadas que certamente viriam, vestidas ou não. Mas se viessem não era de todo ruim. Dizem por aí que se uma mulher não recebe cantada nem de operário é porque a coisa não está nada boa ou ela é feia demais. Esse era o consolo.
Às vezes me preocupava se eles não iam perder o equilíbrio durante as abordagens. Mas estavam sempre muito seguros. Todos bem presos com cintos adequados, garantindo à obra o não acontecimento de acidentes de trabalho, anunciado diariamente na plaqueta – estamos há tantos dias sem acidentes.
Com a nova construção, outra mudança se concretizava na paisagem da minha janela. O por do sol começava a ser interditado. Ficava a imaginar se eu não mais faria as minhas orações ao entardecer do sol ou se ainda seria possível visualizar o poente naquela paisagem.
Mas interditaram o por do sol...
Betoneira estacionada anunciava o início das fundações. Cimento girando na panela gigante preparava a massa para descarga nas lajes e vigas que iriam erguer o novo esqueleto. A presença constante do capacete branco dava segurança ao mestre, aos operários e aos vizinhos do lado. Numa visão bem clara de quem comandava a obra, percebíamos a hierarquia observando os capacetes nas suas cores distintas.
Com olhos curiosos e condição de vizinha, chamava-me a atenção o capacete branco bem sentado na cabeça do comando. Era uma mulher que andava à frente, deixando bem marcada a presença feminina naquele local de machos. Da minha janela orgulhava-me do sexo frágil mostrando a força, o conhecimento e a autoridade diante de todos. Eu me sentia a própria e ainda mais impressionada! Sem perder a elegância, ela andava de um lado para outro em cima do salto! Muito jovem e charmosa!
Tijolos iam sendo sentados numa rapidez e habilidade que faziam crescer as paredes da noite para o dia. Antes miúdos, na fundação da obra, os operários iam crescendo à medida das lajes e se aproximando da altura da minha janela. A partir daí também começavam a interagir. Sabíamos disso pois ouvíamos as abordagens indiscriminadas a quem se aventurasse a aparecer nas janelas. Ouvíamos os gritos – Dona Maria!!! Aliás, nós mulheres éramos todas chamadas de D. Maria. Algumas vezes uma cantoria cafona. Outras vezes uma piada – calcinha preta, hein?!!!
Nós, vizinhas, tínhamos perdido a privacidade e a liberdade de andar pela casa como antes, quando ainda não havia a construção. Eu particularmente tinha acesso à área de serviço do meu apartamento sem a menor preocupação. Com os novos vizinhos operários tivemos que ter mais cuidado com o que vestíamos para não provocarmos as cantadas que certamente viriam, vestidas ou não. Mas se viessem não era de todo ruim. Dizem por aí que se uma mulher não recebe cantada nem de operário é porque a coisa não está nada boa ou ela é feia demais. Esse era o consolo.
Às vezes me preocupava se eles não iam perder o equilíbrio durante as abordagens. Mas estavam sempre muito seguros. Todos bem presos com cintos adequados, garantindo à obra o não acontecimento de acidentes de trabalho, anunciado diariamente na plaqueta – estamos há tantos dias sem acidentes.
Com a nova construção, outra mudança se concretizava na paisagem da minha janela. O por do sol começava a ser interditado. Ficava a imaginar se eu não mais faria as minhas orações ao entardecer do sol ou se ainda seria possível visualizar o poente naquela paisagem.
Mas interditaram o por do sol...
