sábado, 25 de outubro de 2008

Da janela, os vizinhos...A Construção (2)

A Construção ...
Betoneira estacionada anunciava o início das fundações. Cimento girando na panela gigante preparava a massa para descarga nas lajes e vigas que iriam erguer o novo esqueleto. A presença constante do capacete branco dava segurança ao mestre, aos operários e aos vizinhos do lado. Numa visão bem clara de quem comandava a obra, percebíamos a hierarquia observando os capacetes nas suas cores distintas.
Com olhos curiosos e condição de vizinha, chamava-me a atenção o capacete branco bem sentado na cabeça do comando. Era uma mulher que andava à frente, deixando bem marcada a presença feminina naquele local de machos. Da minha janela orgulhava-me do sexo frágil mostrando a força, o conhecimento e a autoridade diante de todos. Eu me sentia a própria e ainda mais impressionada! Sem perder a elegância, ela andava de um lado para outro em cima do salto! Muito jovem e charmosa!
Tijolos iam sendo sentados numa rapidez e habilidade que faziam crescer as paredes da noite para o dia. Antes miúdos, na fundação da obra, os operários iam crescendo à medida das lajes e se aproximando da altura da minha janela. A partir daí também começavam a interagir. Sabíamos disso pois ouvíamos as abordagens indiscriminadas a quem se aventurasse a aparecer nas janelas. Ouvíamos os gritos – Dona Maria!!! Aliás, nós mulheres éramos todas chamadas de D. Maria. Algumas vezes uma cantoria cafona. Outras vezes uma piada – calcinha preta, hein?!!!
Nós, vizinhas, tínhamos perdido a privacidade e a liberdade de andar pela casa como antes, quando ainda não havia a construção. Eu particularmente tinha acesso à área de serviço do meu apartamento sem a menor preocupação. Com os novos vizinhos operários tivemos que ter mais cuidado com o que vestíamos para não provocarmos as cantadas que certamente viriam, vestidas ou não. Mas se viessem não era de todo ruim. Dizem por aí que se uma mulher não recebe cantada nem de operário é porque a coisa não está nada boa ou ela é feia demais. Esse era o consolo.
Às vezes me preocupava se eles não iam perder o equilíbrio durante as abordagens. Mas estavam sempre muito seguros. Todos bem presos com cintos adequados, garantindo à obra o não acontecimento de acidentes de trabalho, anunciado diariamente na plaqueta – estamos há tantos dias sem acidentes.
Com a nova construção, outra mudança se concretizava na paisagem da minha janela. O por do sol começava a ser interditado. Ficava a imaginar se eu não mais faria as minhas orações ao entardecer do sol ou se ainda seria possível visualizar o poente naquela paisagem.
Mas interditaram o por do sol...

domingo, 5 de outubro de 2008

Da janela, os vizinhos...A Construção (1)

A Construção...

Começo de uma nova construção. Estava na mídia da especulação imobiliária. O primeiro duplex de Natal, no bairro do Tirol, o mais charmoso da cidade. O bairro nobre.
Demolição de casas iniciou as atividades para a instalação do canteiro de obras que seria o ninho para o novo. Abrigaria uma empresa de construção civil na sua mais recente inovação. “O Duplex”.
O leva-entulho era estacionado à espera do passado para dar lugar ao novo. Ia carregar na caçamba as lembranças de tão pouco tempo atrás, sem muito significado para os que viam de longe. Boas lembranças para os viventes daquelas paredes. E a minha curiosidade de vizinha, que via, sem permissão, o passado dos outros, assistindo ao presente daquele momento, sem a certeza exata do que se passou ali, antes matéria. Ia também a minha imaginação sobre a rotina dos outros.
Árvores derrubadas arrastando os ninhos dos pássaros e os sons dos seus donos. Ouvia o desespero de longe. Perdidos e indignados, os pássaros e as árvores. Uma geração das espécies sacrificadas em nome do desenvolvimento urbano e em prejuízo dos meus olhos e ouvidos.
Em pouco tempo foi criado um espaço novo. Um vazio que só tinha sentido para os que o fizeram e para os que o desejavam. O canto dos pássaros e o farfalhar das árvores deram lugar aos sons da engenharia.
Sirene tocando. Homens trabalhando. Materiais chegando. Bate-estaca zoando. Observava da janela a metodologia adotada. A rotina da construção. Um canteiro de obras organizado. Operários de uniforme e capacetes. Apesar da transformação e da agressão, já era bonito de se ver e comentava com um grande amigo que me visitava – veja como é bacana esse canteiro! A empresa estava de parabéns!
Todos uniformizados num ritmo frenético como é de costume nas construções, quebravam e passavam com seus carros de mão, cheios dos restos “mortais” da construção de outros e de outrem. Daqui imaginava que esses já tinham um destino. Pelo menos nas construções de novos, o passado dos velhos é visto com certo valor. Nesse caso, uma parte deles foi sepultada onde havia antes uma piscina.
Andaimes eram empilhados lado a lado, numa perfeição tão organizada que dava gosto de se ver. Parecia realmente a construção de um ninho gigante. Ferros de todos os tamanhos foram colocados ali embaixo, numa promessa de sustentar um novo esqueleto. O esqueleto do novo exuberante.

Da janela, os vizinhos...enquanto não uso os pincéis...

O ano de 2008 não tem me dado trégua me faltando a inspiração para os pincéis. Assim resolví dar início a uma nova atividade. Escrever... Começo hoje a postar alguns escritos que surgiram nos momentos de abstração.

Pela janela, de onde ainda consigo ver o sol se por, observo os vizinhos e imagino a rotina deles sem a menor cerimônia...

A partir de agora, meus caros leitores, divido com vocês minhas observações e imaginações, além da curiosidade que é de todos - Da janela, os vizinhos....