domingo, 5 de outubro de 2008

Da janela, os vizinhos...A Construção (1)

A Construção...

Começo de uma nova construção. Estava na mídia da especulação imobiliária. O primeiro duplex de Natal, no bairro do Tirol, o mais charmoso da cidade. O bairro nobre.
Demolição de casas iniciou as atividades para a instalação do canteiro de obras que seria o ninho para o novo. Abrigaria uma empresa de construção civil na sua mais recente inovação. “O Duplex”.
O leva-entulho era estacionado à espera do passado para dar lugar ao novo. Ia carregar na caçamba as lembranças de tão pouco tempo atrás, sem muito significado para os que viam de longe. Boas lembranças para os viventes daquelas paredes. E a minha curiosidade de vizinha, que via, sem permissão, o passado dos outros, assistindo ao presente daquele momento, sem a certeza exata do que se passou ali, antes matéria. Ia também a minha imaginação sobre a rotina dos outros.
Árvores derrubadas arrastando os ninhos dos pássaros e os sons dos seus donos. Ouvia o desespero de longe. Perdidos e indignados, os pássaros e as árvores. Uma geração das espécies sacrificadas em nome do desenvolvimento urbano e em prejuízo dos meus olhos e ouvidos.
Em pouco tempo foi criado um espaço novo. Um vazio que só tinha sentido para os que o fizeram e para os que o desejavam. O canto dos pássaros e o farfalhar das árvores deram lugar aos sons da engenharia.
Sirene tocando. Homens trabalhando. Materiais chegando. Bate-estaca zoando. Observava da janela a metodologia adotada. A rotina da construção. Um canteiro de obras organizado. Operários de uniforme e capacetes. Apesar da transformação e da agressão, já era bonito de se ver e comentava com um grande amigo que me visitava – veja como é bacana esse canteiro! A empresa estava de parabéns!
Todos uniformizados num ritmo frenético como é de costume nas construções, quebravam e passavam com seus carros de mão, cheios dos restos “mortais” da construção de outros e de outrem. Daqui imaginava que esses já tinham um destino. Pelo menos nas construções de novos, o passado dos velhos é visto com certo valor. Nesse caso, uma parte deles foi sepultada onde havia antes uma piscina.
Andaimes eram empilhados lado a lado, numa perfeição tão organizada que dava gosto de se ver. Parecia realmente a construção de um ninho gigante. Ferros de todos os tamanhos foram colocados ali embaixo, numa promessa de sustentar um novo esqueleto. O esqueleto do novo exuberante.

4 comentários:

Marilia Figueiredo Bittencourt Leite disse...

Mamaaaaa... Acabei de ler "A Construcao" e adorei!!! Parecia que eu tava vendo td... hehehe... To na expectativa de ler os outros!!! Beijos mama!! Amo voce!

Helder Macedo disse...

...lu...lulu...lucina...luhermila. de fato, a gente acaba acompanhando você junto com seus escritos. nossa senhora da guia! por detrás do paradoxo entre o condoer-se com a derrota dos ninhos dos pássaros nas belas árvores e o encher-se de graça com os novos ninhos, do metal, do concreto, do aço, encontra-se a sua mente arguta e observadora... vamos em frente! quero mais! bjs, seu admirador e amigo, helder

Ana Beatriz disse...

Tia! Cada dia a gente descobre mais alguma coisa sobre você hein! É também escritora? Uma artista completa! Adorei a forma como escreve e já tô doida para ler esse livro! Boa sorte e sucesso! Beijos, Bibia

Ernesto Guerra Figueiredo disse...

É o passado que vira presente e o presente que acha que é futuro..
Deixando para traz aquele ar que era tão puro.
Debaixo das árvores brincando de polícia ladrão..
E hoje uma construção.

Mais se essa transformação vai abrigar esperança,
Vale a pena ter essa visão e guardar uma boa lembrança.

Parabéns Lucina(Cininha), pela CONSTRUÇÃO desse texto tão bem observado.
BEIJÃO..NETO