domingo, 16 de novembro de 2008

Da janela, os vizinhos...e os galinheiros

...e os galinheiros.
Antes da construção, nas casas que foram destruídas para dar lugar ao novo, havia nos quintais, muitas galinhas e, lógico, um galo também, para não fugir da regra. Incomodavam demais quando pegadas pelo galo. Um barulho infernal ao amanhecer do dia. São muitas ainda as casas que restaram e continuam a criar galinhas e galos. Com o desmanche de duas dessas casas para a construção do novo ainda acreditei que viesse o alívio, mas me enganei.
O novo se erguia e alguém da construção também arranjou um galo pra perturbar os que ali ficavam para dormir sendo acordados por ele, além da sirene. E eu concluía que nunca iria me livrar daquele barulho, voltando a imaginar formas sobre como eu poderia acabar com aquilo. Imaginava-me muitas vezes de espingarda na mão mirando para acertar um galo. Infelizmente não conseguia vê-los ou felizmente para os donos dos galos e protetores dos animais.
O galo contratado como despertador continuava a cantoria infernal somando-se ao coro das galinhas do outro vizinho cujo galo também não tem um pingo de noção da hora. Canta desorientadamente até hoje. Muitas vezes ouço outros galos cocoricando na vizinhança. Um canta, outro responde e mais um chama a atenção de outro. Uma orquestra de galos. Curioso esse costume...
Uma mania feia de meus vizinhos mais próximos. Criar galinhas em plena cidade! É bem verdade que eles já estavam ali quando construíram o prédio onde moro. Na certa, esses que ainda mantêm o galinheiro e resistiram à demolição de suas casas com a chegada do novo, ainda vão continuar ali por mais tempo, mas há um lado positivo nessa história. A resistência das casas e a presença dos galinheiros mantêm minha janela a uma distância do novo exuberante e evita um pouco a invasão de privacidade, apesar de praticada por ambos os lados. Mas o cocoricó, é enlouquecedor!
Que agonia! A minha e a das galinhas. Essa agonia se intensifica quando os donos dos galinheiros resolvem tocar fogo nas folhas secas que caem das poucas mangueiras que restaram, acumuladas num buraco grande feito ao lado do galinheiro. Haja fumaça, galinhas e galos cocoricando. Um inferno!
Há momentos que fico a imaginar que estão maltratando as galinhas. Elas soam como desesperadas, como se estivessem à beira da morte. Talvez essa seja mesmo a hora delas irem para a panela dos vizinhos. Acredito que seja essa a razão do galinheiro. Engordá-las para comê-las torradas, à cabidela ou à moda de Totoia. Quem sabe, uma canja para os idosos das casas. Menos mal. E somente por esse motivo perdôo os galinheiros.

domingo, 2 de novembro de 2008

Da janela, os vizinhos...O por do Sol interditado

O por do Sol interditado....
A vista panorâmica mudou. Da área de serviço do prédio onde moro há quinze anos, a paisagem já não é mais a mesma. Desde 2006, quando teve início a construção do primeiro duplex de Natal, também teve início a interdição ao poente. Antes de surgir o novo prédio , passava o tempo vendo o por do Sol, único e lindo a cada entardecer, a cada estação.
Ali, em pé, diante da presença Divina em forma de natureza, fazia as minhas orações, agradecendo ao universo o presente de viver aquele dia e o próximo, que seria ainda mais bonito. Quantas vezes, dali, agradecí a dádiva daquela paisagem tão bela, que apesar de interditada hoje, ainda vejo através da memória, nos pensamentos e na devoção. “Espírito Infinito, Inteligência Máxima. Poder Divino Criador...” uma oração extensiva a todas as coisas da natureza e do homem. À vida.
Mas interditaram o por do Sol na minha janela. A paisagem alterada com a presença do novo exuberante perdeu muitos momentos de entardecer. O Sol não mais se põe em determinadas épocas. Não aqui na minha janela. Em todo o ano, põe-se somente à esquerda ou à direita do novo exuberante. Nesse horário, quando a paisagem torna-se mais quente com as cores do poente e também não são prolongados, os momentos de rara beleza diminuíram ainda mais. Meses nessas imagens e mais ainda sem elas.
A minha frente, pela minha janela, não terei mais o por do Sol por vários meses do ano. Em determinadas épocas, sei que ele está ali, mas não o vejo como gostaria. Sinto ameaças ainda pelo lado esquerdo do que sobrou da vista. Há espaços que podem abrigar outras novas construções e extinguir definitivamente a minha paisagem de por do Sol. Por sorte, o concreto erguido é agradável aos olhos. Uma construção moderna surgiu sob a inspiração do homem caprichoso. E a isso também admiro, apesar da intervenção.
Felizmente tenho o nascer do Sol do lado oposto. Ali serei presenteada por toda a vida, acredito. Pelo menos, enquanto aqui eu morar. Tenho o privilégio de viver em frente ao verde que cobre as dunas da via costeira. Um espaço que preserva a mata atlântica do litoral é garantido pelas forças armadas e proporciona-me uma paisagem que nunca será transformada. Através dela curo todos os meus males e anseios. Não posso me queixar. Tenho o nascer do Sol garantido e a aurora de cada dia. A esperança da vida.